sexta-feira, 26 de julho de 2013

O Dia do Transplante 26/07/2004


CAPÍTULO VI

O DIA DO TRANSPLANTE

 
Carta a DEUS – 1

 
Bom dia Deus,

Sei o quanto andas ocupado com a turbulência dos

homens, mas por favor escuta, olha para este ser pequenino que

criaste à tua imagem, vê como sofre e opera o teu milagre. Sei

que te peço muito DEUS, mas sabes o quanto ele é importante

para nós e o que tem ainda para nos ensinar.

Ilumina as mãos dos homens e traz-lhe a saúde que tanto

precisa.

Obrigado Deus por me escutares, estou mais atenta e agora

sei o quanto andava distraída das coisas importantes da vida.

Obrigado Deus

Lígia,

Hospital Pediátrico

 
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No dia 23 ou 24 de Julho de 2004, não sei precisar, ficou decidido que o “transplante com dador vivo” seria feito na semana seguinte, em dia ainda a confirmar. No Domingo, dia 25/07/2004, ao principio da noite, estávamos numa amena cavaqueira com uma enfermeira, isto já com o Vitinho e a Lígia no inicio dos preparativos, quando outra enfermeira entrou, olhou-nos timidamente e chamou a colega. Ambas comunicaram-nos ‘cautelosamente’ para estarmos preparados, porque “parecia” que havia um dador compatível!,Nesse momento, algo aconteceu que mexeu com as nossas emoções, ficámos em meditação e a Dra. Isabel veio conversar connosco! Eu fiquei mudo, sem reacção, e a Lígia ficou muito emocionada porque, agora que as coisas já estavam programadas, ela queria continuar a ser a dadora, mas obviamente que tal já não seria possível! Primeiro porque, só se é dadora uma vez na vida e assim ela ficaria disponivel para outra altura se tal se viesse a mostrar necessário, depois porque qualquer cirurgia envolveria riscos e o facto de termos mais duas filhas inibia-nos sequer de questionar a decisão. Aliás dadas as características do dador, que por respeito da sua memória não as descrevo, seria absurdo não aceitar esse fígado, e mesmo que o fizessemos, garantidamente que ninguém nos ouviria! Para além de tudo isto, também eu me opunha, dadas as circunstancias, obviamente, seria uma idiotice colocar a vida da Lígia em perigo! Mas a reacção da Lígia era natural e compreensível! Ela sentia-se um pouco responsável pela insuficiência do Vitinho e por isso, se a medicina permitia corrigir “o erro”, então parecia-lhe imperioso que fosse ela a fazê-lo!

O dia que estávamos quase a iniciar seria sem sombra de dúvidas o dia mais longo das nossas vidas. As horas passavam muito lentamente e nesse dia o Hospital Pediátrico estava estranhamente calmo! Entretanto juntou-se novamente a nós a Ana Paula que fez questão de nos acompanhar nessa fase mais crítica. Cerca das 2:00 chamaram a ambulância que iria levar a


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Lígia e o Vitinho do Pediátrico até aos H.U.C. Acompanhei-os de carro, mais a Ana Paula e na ambulância, acompanhou-os a Enfermeira Helena que dificilmente conseguia suster as lágrimas. Nos H.U.C. a tensão era evidente e fomos conduzidos ao “bloco”. A contrastar esse sentimento, uma cara simpática e sorridente recebeu-nos e perguntou-nos se um de nós queria acompanhar o Vitinho lá dentro. A Lígia entrou e ao vê-los entrar, senti o meu coração apertar, apertar, apertar… quase parecia que estávamos a pairar sobre um precipicio que nos sugava para o infinito. Fiquei eu e a Ana Paula naquele sítio frio, desagradável e esperámos o regresso da Lígia. Um bom pedaço depois ouvimos umas portas a bater, um estrondo, um som metálico e de repente apareceu-nos uma maca com um corpo todo coberto por um lençol. Gelámos, eu e a Ana Paula, aquele corpo era o corpo do dador. Fiquei sem palavras e olhei com respeito para o vulto desse alguém! O vazio da morte na esperança da vida, lágrimas que correm com fundamentos opostos, nas nossas faces e nas dos seus entes-queridos!

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