Ontem foi o Dia Europeu do Transplante de Orgãos e Tecidos.
Fica aqui uma homenagem com esta imagem multinacional de crianças transplantadas!
Nada melhor para o efeito que recordar também esta carta do Prof. Alfredo Mota e que tão bem se adequa ao momento!
De: Alfredo Mota
Data: 7 de Maio de 2010 10:52
Exmo. Senhor
Dr. Vítor Raimundo Martins
Escrevo-lhe este e-mail após ter lido o seu livro “Lutar até Viver”. Começo por
me identificar: Alfredo Mota, Director do Serviço de Urologia e Transplantação
Renal dos Hospitais de Universidade de Coimbra, cargo no qual sucedi ao Prof.
Linhares Furtado, em 2003, que acompanhei desde o inicio do nosso programa de
transplante renal em 1980, e com o qual colaborei nos primeiros transplantes
hepáticos. Gostaria de lhe transmitir a minha mais profunda admiração pela
batalha que a família Martins travou pelo seu filho o Vitinho, verdadeiro herói
de toda esta saga e que tão bem retratada é neste seu livro. O vosso testemunho
real e vivido com tanto amor e fé deve ser divulgado porque constitui uma
verdadeira lição. A transplantação é uma actividade relativamente recente, o 1º
transplante renal com sucesso foi realizado em 1954, em Boston, entre dois
irmãos gémeos univitelinos que por serem imunologicamente idênticos não
necessitou de imunossupressão, que de resto ainda não existia (o primeiro IMS,
a azatioprina, só foi descoberto em 1959). Portanto, a transplantação tem pouco
mais de 50 anos, o que em termos de medicina é muito pouco. O seu sucesso
levou-a a ser considerada por um importante organismo americano como “…o
terceiro momento mais fascinante da história da medicina depois da descoberta
da penicilina por A. Fleming e da descoberta da vacina da poliomielite por
Jonas Salk”. Foi igualmente apelidada como “Milagre médico do século XX”. Por
estas razões e pela experiência porque passaram, o vosso testemunho é de grande
importância porque nos traz a visão de pessoas fora da área da medicina que
sentiram e viveram esta problemática. É dar a conhecer uma realidade que poucos
conhecem. Por exemplo, se tivessem lido o seu livro, provavelmente os pais de
um jovem de 15 anos falecido nos HUC, no mês passado, devido a acidente, não
teriam violentamente recusado a colheita dos órgãos do seu filho para transplante,
reagindo com acusações de comércio e outras inverdades, claramente indiciadoras
de um completo desconhecimento do que é a transplantação e da sua importância
para quem precisa. Diga-se que não estando o jovem inscrito no RENNDA a lei
permitia-nos a colheita e a transplantação, mas naturalmente perante a recusa
liminar dos pais, não o fizemos, correndo o risco de doente/s esperando por um
transplante urgente morrer/em e sermos acusados pela/s família/s do/s
falecido/s de não termos feito o transplante, havendo um dador compatível. Este
triste episódio permite-nos apercebermo-nos da complexidade de algumas destas
situações, do seu melindre e das difíceis condições em que por vezes é
necessário decidir, porque estão vidas em jogo. Já agora conto-lhe que em 1986
quando se realizou o primeiro transplante cardíaco em Portugal o coração foi
colhido em Coimbra nos HUC por uma equipa mista constituída por mim (rins) e
pelo Prof. Queiroz e Melo (coração). Pois isso valeu-me ser chamado ao
Ministério Público e ser interrogado perante uma queixa dos familiares do
falecido por não terem sido consultados (a lei não o exigia). O caso não teve
consequências mas não deixou de me incomodar. Um triste célebre Prof. de
Medicina Legal do Porto dizia, nessa altura, que estavam a ser colhidos órgãos
em pessoas vivas!! É por estas razões e por muitas mais que o vosso testemunho
é importante e deve ser divulgado.
Dr. Vítor Martins, atrevo-me a dizer-lhe que a sua luta pela transplantação não
pode terminar, porque ligada à sua actividade profissional, há que resolver a
questão do seguro de vida dos dadores vivos de órgãos, nomeadamente de rim (o
de fígado é mais complexo e por é isso excepcional, até porque só temos um
fígado). Nos HUC já fizemos cerca de 80 transplantes renais de dador vivo,
felizmente até hoje sem qualquer complicação grave, e sempre sem seguro de vida
do dador, porque em Portugal ninguém faz este seguro ao dador! Nos Estados
Unidos mais de 90% das seguradoras faz seguro de vida ao dador de rim, porque
está provado que o risco que uma pessoa corre ao doar um rim em vida é
semelhante a quem tem de conduzir 20 km/dia para ir para o emprego – risco de
morte de cerca de 0,03%. Tenho a certeza que vai ser um militante desta causa.
No próximo dia 14 de Maio pela 9,30 horas o Serviço de Urologia e
Transplantação Renal dos HUC, que é líder no nosso país dos transplantes
renais, vai comemorar os seus 2000 transplantes renais (incluindo pediátricos),
no auditório dos HUC. É com muito gosto que aproveito esta oportunidade para o
convidar e aos seus familiares a estarem presentes, para o que junto o
programa.
Congratulo-me vivamente com o sucesso do transplante hepático do Vitinho e com
o sentimento de gratidão para com os profissionais de saúde que com tanto
carinho manifesta, por ser tão raro nos dias que correm em que a máxima da
maioria dos doentes do nosso SNS é “Eu desconto, tenho direito” e subjacente
está “e você está aqui para me servir”. Regozijo-me por mais este êxito do meu
amigo Emanuel, do Carlos Bento que é o anestesista do meu Serviço e de toda a
equipa envolvida.
Longa e feliz vida para o Vitinho, que com grande probabilidade dentro de
alguns anos, adquirida a tolerância ao enxerto, dispensará os medicamentos
imunossupressores e deixará de ser um doente crónico. Para os pais e irmãs,
alicerces fortes dessa família, muita saúde e e muitas felicidades. Os
valores, as convicções e a fé são um património dos felizes por isso julgo que
a sua Ligia é uma pessoa feliz, como o demonstraram as lágrimas que verteu na
peregrinação a Fátima. Obviamente que o marido que tem uma mulher assim também
o é de certeza.
Envio à família Martins o testemunho comovido da minha admiração
Alfredo Mota
A Lígia neste momento está a passar a Figueira da Foz na sua terceira peregrinação a Fátima!
E recordo aqui outra história que aconteceu com o Alex na primeira vez que foi a Fátima após transplante. Quando passávamos por um pinhal, longe das habitações o Alex perguntou-nos, "Pai, quem é aquela Senhora vestida de branco no meio da floresta?" Olhámos e nada vimos! Ficámos confusos e insistimos e ele apontou para o pinhal e disse '- ali' e nós... continuámos a não ver nada!!
Já em Fátima passou por nós a Freira que ia substituir a que estava na Capela do Silêncio e o Alex puxou-me para que eu a visse bem e disse, "vês Pai, é esta a Senhora vestida de Branco!" ......