Quando a humanidade conseguir unir esforços em prol da própria humanidade, o nosso mundo converter-se-á num verdadeiro paraíso. As guerras que nunca mais acabam e apenas semeiam morte, destruição e sofrimento são, infelizmente, a prova do contrário: afinal, continuamos a viver demasiado perto do inferno.
É difícil compreender quais serão, afinal, os objetivos desta guerra na Ucrânia.
Quantos jovens já perderam a vida? Quanta dor carregam as mães que nunca mais voltarão a abraçar os seus filhos?
Quando escrevi "Lutar Até Viver", procurei despertar o nosso país para as insuficiências do Serviço Nacional de Saúde na área da transplantação hepática pediátrica. Deparei-me com médicos que pouco sabiam sobre esta realidade, outros que deram aconselhamento inadequado, e ouvi relatos de crianças que morreram sem que os seus pais tivessem sido orientados para Coimbra, onde existia a possibilidade de tratamento.
Por incrível que pareça, Portugal e a Rússia partilhavam então uma dificuldade comum. Em 2004, ambos os países enfrentavam o desconhecimento de parte da comunidade médica relativamente à existência de uma alternativa para muitas destas crianças: o transplante hepático. Ambos necessitavam de investir seriamente em programas de transplantação.
Passaram mais de vinte anos. E o que encontramos hoje na Rússia?
Em termos técnicos, a qualidade cirúrgica dos seus principais centros é muito elevada. O Centro Shumakov é reconhecido internacionalmente e desenvolveu uma extraordinária capacidade na transplantação hepática com dador vivo, sobretudo em idade pediátrica.
O principal problema reside nas enormes assimetrias entre Moscovo e o restante território, bem como no acesso desigual dos doentes aos centros altamente especializados.
Sempre defendi que, perante a escassez de órgãos disponíveis, uma das respostas para crianças em situações semelhantes à do meu filho passaria pelo desenvolvimento dos programas de transplantação pediátrica com dador vivo. Não posso, por isso, deixar de reconhecer e admirar aquilo que a Rússia conseguiu alcançar nesta área.
Do ponto de vista científico, a transplantação hepática pediátrica russa é hoje amplamente respeitada. As suas limitações já não residem na competência dos cirurgiões, mas sobretudo em factores organizativos, geográficos e na disponibilidade de órgãos.
Infelizmente, esta guerra veio complicar tudo. É um enorme paradoxo ver um país que alcançou progressos tão significativos numa área dedicada a salvar vidas, enquanto, ao mesmo tempo, um conflito continua a destruir tantas outras.
É triste. Muito triste.

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